Vaiêshev (5769)
Uma parábola sobre duas mulheres
Por Edgard Leite
Em Vaiêshev está contida a história de duas
mulheres: Tamar e a esposa do faraó. As suas ações
éticas se espelham – invertidas, portanto. O movimento
inicial de ambas é o mesmo, em forma. As
duas tomam a iniciativa na aproximação sexual ao
homem, mas suas razões são opostas. Tamar busca a
realização de uma disposição sagrada legal, o levirato.
A esposa do faraó, aparentemente, é apenas movida
pelo desejo. A primeira procura reafirmar a Lei, a
segunda a subverte, pois é casada.
Os estudos teológicos feministas, como os de
Judith Plaskow, têm o hábito de colocar em relevância
o caráter misógino do texto bíblico. De fato,
no mundo no qual a Torá foi redigida, as mulheres
desempenhavam um papel subordinado no que diz
respeito ao exercício da função política de mando.
Há ali, portanto, uma série de argumentos no sentido
de desqualificar o ser feminino.
A parábola das duas mulheres parece ser um
desses momentos: embora com sinais opostos – o da
justiça de Tamar e o da injustiça da mulher do faraó
– ambas agem com dissimulação e mentira.
No entanto, a própria Judith Plaskow, que defende
uma profunda reinterpretação feminista da Torá,
sugere a necessidade simultânea de ir além dos sinais
sexuais contidos nos textos sagrados. A afirmativa
talmúdica, por exemplo, de que “é melhor andar ao
lado de um leão do que ao lado de uma mulher”
(Brachot, 152a) não pode ser interpretada apenas do
ponto de vista de sua misoginia. Pois, como aponta
Plaskow, “então não há perigo para uma mulher ao
andar ao lado de um homem?”.
Assim, a interpretação parece estar além. Tal
como a afirmativa talmúdica pode ser entendida
não no sentido misógino, mas no contexto de uma
discussão sobre o tema da confiança, da mesma
maneira a parábola das duas mulheres talvez esteja
centrada não na crítica de uma suposta inclinação
feminina, mas sim na discussão ética da relação
entre fins e meios.
Há justiça em Tamar? Sim. Mas os seus meios
são corretos? Dificilmente. É claro que numa sociedade
como aquela não havia real diálogo entre
homens e mulheres. Mas assim como é condenável
a mentira da esposa do faraó – devemos supor que
também a de Tamar deva ser. Porém não apenas as
delas. A Torá parece advertir aqui contra qualquer
pessoa que não assume com clareza quer os seus
objetivos quer as conseqüências de seus atos. E essa
advertência, evidentemente, pela sua profundidade
ética, deve justamente ser estendida a todos. Tanto
homens quanto mulheres.
Shabat Shalom



