Nôach (5769)
Crise, retorno e recomeço
Por Débora Rosman
Sempre que leio um texto, ou quase sempre, me
pergunto: o que ele tem a ver comigo? O que tem a
ver com minha vida, meu contexto? Quando peguei
para ler a parashá Nôach (Bereshit 6:9-11:32) pensei:
e agora, o que posso aprender da história de um
dilúvio que destrói toda a humanidade e do homem
que recebe a ordem para construir uma arca e colocar
nela animais para recomeçar a vida na terra?
Felizmente, quando se trata de literatura judaica,
não estou sozinha, posso contar com mestres
e comentaristas como G. Plaut, que afi rma que a
mensagem da parashá Nôach é: o homem erra, nesta
ocasião é corrupto e violento, é punido, se arrepende
e recebe uma nova oportunidade para recomeçar.
Esta é também, segundo ele, a mensagem do
profeta Isaías lida na Haftará (Isaías 54:1-55:5).
O profeta fala aos exilados que, com a iminente
derrota da Babilônia frente aos sírios e medas, têm
muita esperança de retornar a Israel. Diz que Deus
perdoa Seu povo, que rompera o pacto feito com
Ele praticando a idolatria e se arrepende, e permite
o seu retorno.
Os temas crise, retorno, e recomeço estão presentes
na nossa literatura diversas vezes; estão, por exemplo, na Torá, que
relata a saída do povo hebreu
do Egito, rumo a Israel após anos de escravidão.
Também estão nas palavras dos profetas como Isaías
e de grandes comentaristas como Maimônides. Com
eles aprendemos que o que parece uma catástrofe, o
fim, não o é – depende do ponto de vista (as fi lhas
de Lot acreditaram que a destruição de Sodoma e
Gomorra era a destruição da raça humana).
Então, a mensagem dos nossos sábios tem muito
a ver com a minha vida atual. Tem muito a ver com
a crise econômica e o desespero que sinto quando
leio nos jornais sobre o sobe e desce da bolsa de
valores dia após dia. E, se não tenho meus mestres
para me ajudar a entender e aprender com ela, tenho
jornalistas competentes e economistas, como o
reconhecido Ignacy Sachs que afi rma: “Saímos da
Segunda Guerra Mundial com três idéias de consenso:
pleno emprego, Estado atuante e planejamento.
O neoliberalismo colocou abaixo não só a idéia do
planejamento, como a da regulamentação. Temos de
voltar a esse debate.”
E para participar do debate não temos que ser
economistas ou empresários, mas temos que ser bem
informados e capazes de avaliar a situação por conta
própria, para tomar atitudes positivas, reconhecer
alarmismos e contestar falsas acusações.
Shabat Shalom



